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E2MJREngenharia de Materiais e Manufatura

Conteúdo técnico

Por que o mesmo aço pode ser mole ou duro

Têmpera, revenimento, recozimento e normalização explicados pela microestrutura — e por que a velocidade de resfriamento decide a dureza do aço.

Equipe E2M Jr

· 8 min de leitura

Micrografia óptica de martensita em aço AISI 4140 temperado em óleo, com barra de escala de 10 micrometros.

Dois pedaços do mesmo aço, durezas muito diferentes

Pegue uma barra de aço SAE 1045, corte dois pedaços e mande cada um para um tratamento diferente. Um volta com dureza da ordem de 170 HB, macio o suficiente para ser usinado sem esforço. O outro volta com mais de 55 HRC — tão duro que a ferramenta de corte comum não o risca.

Mesmo aço. Mesma composição química. Mesmo certificado do fornecedor.

A diferença não está no que o aço é, e sim no que foi feito com ele. Mais precisamente: na velocidade com que ele foi resfriado depois de aquecido. E essa diferença é visível — não por dedução, mas literalmente, no microscópio.

O que o carbono faz dentro do ferro

Toda a história depende de um detalhe: o ferro muda de arranjo interno conforme a temperatura, e os dois arranjos têm apetites muito diferentes por carbono.

Em alta temperatura, o ferro assume a forma chamada austenita, que dissolve carbono com facilidade. Em temperatura ambiente, ele está na forma chamada ferrita, que praticamente não dissolve carbono nenhum.

Então, quando um aço aquecido é resfriado, o carbono que estava dissolvido precisa ir para algum lugar. O que decide o destino dele é o tempo:

  1. Esfriou devagar: o carbono tem tempo de sair

    Ele se separa e forma cementita, um composto duro de ferro e carbono. A cementita cresce em lâminas, intercaladas com lâminas de ferrita. Esse arranjo lamelar é a perlita. Quanto mais lento o resfriamento, mais grossas as lâminas e mais mole o aço.

  2. Esfriou rápido: o carbono fica preso

    Não há tempo para nada se separar. O ferro muda de arranjo mesmo assim, mas com os átomos de carbono ainda presos dentro dele, onde não cabem. A rede fica distorcida e travada, e o resultado é a martensita: a estrutura mais dura que um aço comum pode ter.

É por isso que a dureza da martensita depende quase só do teor de carbono do aço, e não dos elementos de liga: é o carbono preso que trava a rede. Um aço de 0,6% de carbono temperado chega a cerca de 1.000 HV, algo em torno de 64 HRC. Um de 0,2% de carbono, por mais bem temperado que seja, não chega perto disso.

Os quatro caminhos de volta

Todos os tratamentos deste texto começam igual: aquecer o aço até a faixa em que ele vira austenita e manter por tempo suficiente. O que os separa é o que vem depois.

Gráfico de temperatura por tempo comparando recozimento, normalização, têmpera e têmpera seguida de revenimento, com a microestrutura resultante de cada ciclo.
Mesmo aquecimento, quatro velocidades de resfriamento, quatro microestruturas.
Tratamento Como esfria O que se forma Para que serve
Recozimento dentro do forno, muito devagar perlita grosseira amolecer para usinar ou conformar, aliviar tensões
Normalização ao ar, fora do forno perlita fina, grão refinado uniformizar a estrutura e refinar o grão antes de usinar ou de temperar
Têmpera em óleo ou água, bruscamente martensita obter dureza máxima
Revenimento reaquecimento após a têmpera martensita revenida devolver tenacidade à peça temperada

A normalização merece uma observação, porque costuma ser tratada como "recozimento apressado" e não é. Além de ser mais rápida e mais barata, ela refina o grão e deixa a estrutura mais homogênea — o que importa quando a peça veio de fundição, de forjamento ou de soldagem e tem regiões com grãos de tamanhos muito diferentes.

O que se vê no microscópio

A diferença entre esses estados não é abstrata. Com a amostra embutida, lixada, polida e atacada com nital, cada microestrutura tem aparência própria.

Micrografia óptica de aço carbono mostrando regiões claras de ferrita e regiões escuras de perlita.
Resfriamento lento: ferrita (claro) e perlita (escuro). Aço A285, 0,18% C.
Micrografia óptica de martensita em aço AISI 4140, com aspecto acicular e barra de escala de 10 micrometros.
Resfriamento brusco: martensita, com o aspecto de agulhas. Aço AISI 4140 austenitizado a 850 °C e temperado em óleo.

São dois aços diferentes nessas imagens — o ponto aqui é o tipo de estrutura, não a comparação direta entre eles. O aspecto é o que interessa: de um lado, regiões bem definidas de duas fases; do outro, um emaranhado de agulhas finas sem contorno de grão evidente.

Aumentando bastante, dá para ver do que a perlita é feita:

Imagem de elétrons secundários mostrando as lamelas alternadas de ferrita e cementita que formam a perlita
Perlita em microscópio eletrônico de varredura, 2000×. As lâminas alternadas de ferrita e cementita aparecem como linhas paralelas. Seção de engrenagem helicoidal polida e atacada com nital 3%.

Aquele espaçamento entre lâminas é uma medida direta de propriedade: quanto mais fino, mais obstáculos ao escorregamento interno e mais resistente o aço. É a mesma lógica do refino de grão.

Por que a têmpera sozinha quase nunca serve

A têmpera entrega a dureza máxima e, junto com ela, três problemas:

É para isso que existe o revenimento: reaquecer a peça temperada a uma temperatura bem abaixo da zona crítica, segurar e resfriar. O carbono preso ganha mobilidade suficiente para se reorganizar parcialmente, as tensões se aliviam e o material recupera tenacidade. Perde-se dureza no caminho — e quanto mais alta a temperatura, mais se perde.

Gráfico mostrando que, conforme sobe a temperatura de revenimento, a dureza cai e a tenacidade aumenta, com uma faixa intermediária de fragilização a evitar.
Escolher a temperatura de revenimento é escolher onde ficar entre dureza e tenacidade.

Na prática, têmpera e revenimento são um tratamento só, em duas etapas. Praticamente nenhuma peça de engenharia é usada no estado temperado puro.

Há ainda um detalhe que não é intuitivo: em certas faixas intermediárias de temperatura, revenir piora a tenacidade em vez de melhorá-la. São os fenômenos de fragilização no revenido, ligados à segregação de impurezas como fósforo, estanho e antimônio nos contornos de grão. A faixa exata depende da composição do aço, e é por isso que a temperatura de revenimento não se escolhe por intuição: ela vem da especificação do aço.

Temperabilidade não é dureza

Essas duas palavras são parecidas e significam coisas diferentes. Confundi-las é uma das causas mais frequentes de peça que sai do forno fora de especificação.

Dureza

quanto o aço endurece — definido quase só pelo teor de carbono

Temperabilidade

até que profundidade ele endurece — definido pelos elementos de liga, pelo tamanho de grão e pelo meio de resfriamento

Uma peça grossa de aço carbono comum pode sair da têmpera dura na superfície e mole no núcleo: o centro simplesmente não esfriou rápido o bastante para formar martensita. Aumentar o teor de carbono não resolve isso. O que resolve é usar um aço com elementos de liga — cromo, molibdênio, níquel, manganês — que retardam a formação de perlita e dão tempo de a martensita se formar mais fundo. É exatamente por isso que existem aços como o 4140 e o 4340.

A temperabilidade de um aço se mede com o ensaio Jominy, padronizado pela ASTM A255: uma barra austenitizada é resfriada por um jato de água em uma só ponta, e a dureza é medida ao longo do comprimento. A curva resultante mostra até onde o endurecimento vai.

Como se confere, depois que a peça já voltou

Tratamento térmico é um serviço cujo resultado não se vê de fora. A peça volta com a mesma aparência que tinha, e o que foi contratado pode ou não ter sido entregue. Três medidas respondem a isso:

  1. Metalografia

    A amostra é cortada, embutida, lixada, polida e atacada. A microestrutura revelada mostra se o que está ali é perlita, martensita ou martensita revenida — e também se o grão cresceu demais por excesso de temperatura.

  2. Dureza, e não só na superfície

    Um perfil de dureza do núcleo até a superfície mostra se o endurecimento atingiu a profundidade esperada. Em peça cementada ou temperada por indução, esse perfil é o próprio resultado do serviço.

  3. Procura de defeito de processo

    A mesma preparação revela descarbonetação na superfície, trinca de têmpera e grão grosseiro — três coisas que não aparecem em ensaio de dureza isolado e que condenam a peça.

Esse é o lado microestrutural de uma história que tem um lado mecânico: as propriedades que esses tratamentos mudam são exatamente as que aparecem em como ler a curva de um ensaio de tração. Juntas, as duas análises respondem o que o material é e o que ele aguenta.

Dicionário do post

Os termos técnicos que aparecem aqui, em português claro.

Microestrutura
O arranjo interno do material, visível ao microscópio depois de polir e atacar a superfície com um reagente. É ela que explica as propriedades que o ensaio mede.
Austenita
A forma que o ferro assume em alta temperatura. Importa porque ela consegue dissolver bastante carbono — bem mais do que a forma de temperatura ambiente.
Ferrita
A forma do ferro em temperatura ambiente. Dissolve pouquíssimo carbono, é mole e dúctil.
Cementita
Um composto duro e frágil de ferro e carbono (Fe₃C). É onde o carbono se aloja quando tem tempo de sair da solução.
Perlita
Um arranjo de lâminas alternadas de ferrita e cementita, formado quando o aço esfria devagar. Quanto mais finas as lâminas, mais resistente o aço.
Martensita
A estrutura que se forma quando o resfriamento é rápido demais para o carbono sair de onde está. Ele fica preso, distorce a rede do ferro e endurece muito o material.
Austenitização
O aquecimento até a faixa em que o aço vira austenita. É o ponto de partida comum de todos os tratamentos deste texto.
Temperabilidade
A facilidade de formar martensita em profundidade, e não só na superfície. É diferente de dureza: diz até onde o endurecimento chega, não quanto ele vale.
Tensão residual
A tensão que fica presa dentro da peça depois do processo, sem nenhuma carga externa aplicada. Na têmpera ela pode ser alta a ponto de trincar a peça sozinha.
Ataque metalográfico
A aplicação controlada de um reagente químico na superfície polida. Ele ataca cada fase em velocidade diferente, e é isso que torna a microestrutura visível.
Nital
O reagente mais usado em aços: ácido nítrico diluído em álcool, normalmente de 2% a 3%.
Ensaio Jominy
Ensaio em que uma barra padronizada é resfriada por um jato de água em uma só extremidade. A dureza medida ao longo dela mostra a temperabilidade daquele aço.

Referências

  1. 01KRAUSS, G.. Steels: Processing, Structure, and Performance. 2. ed. ASM International (2015)
  2. 02KRAUSS, G.. Martensite in steel: strength and structure. Materials Science and Engineering: A, v. 273–275, p. 40–57 (1999)
  3. 03ASM Handbook, Volume 4: Heat Treating. ASM International
  4. 04ASTM International. ASTM A255 — Standard Test Methods for Determining Hardenability of Steel
  5. 05ASTM International. ASTM E407 — Standard Practice for Microetching Metals and Alloys
  6. 06CALLISTER, W. D.; RETHWISCH, D. G.. Ciência e Engenharia de Materiais: Uma Introdução. LTC
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Metalografia e perfil de dureza mostram, na peça que chegou, qual microestrutura ela tem — e se ela corresponde ao tratamento que foi especificado e pago.