O ensaio Charpy e o frio que quebra estrutura
Por que o mesmo aço absorve impacto no verão e parte sem aviso no inverno — e como um pêndulo de bancada mede isso desde os anos 1940.
Equipe E2M Jr
· 6 min de leitura

Uma carga de uma vez só
O ensaio de tração puxa o corpo de prova devagar. Boa parte das peças, porém, não falha assim: falha num golpe, numa queda, num impacto de empilhadeira, numa onda contra o casco.
O ensaio Charpy reproduz essa condição. Um pêndulo pesado é solto de uma altura conhecida, atinge um corpo de prova entalhado e o rompe. Depois da ruptura ele continua subindo do outro lado — mas não até a altura original, porque parte da energia ficou no corpo de prova. A diferença entre as duas alturas é o resultado do ensaio, lido diretamente em joules no mostrador.
O entalhe em V não é um detalhe de fabricação: ele é parte essencial do ensaio. Sem ele, a trinca poderia nascer em qualquer lugar e o resultado variaria demais. Com ele, a tensão se concentra num ponto conhecido e os valores passam a ser comparáveis entre laboratórios — desde que a geometria seja a mesma, e é por isso que a norma a fixa com rigor.
O que a temperatura faz
Aqui está o achado que tornou esse ensaio obrigatório em tanta especificação. Se o mesmo material é ensaiado em várias temperaturas, a energia absorvida não cai de forma suave: ela despenca numa faixa estreita.
Acima da transição, o aço absorve bastante energia e a fratura é dúctil: a superfície sai fosca e fibrosa, com as bordas inclinadas, e o corpo de prova fica visivelmente deformado. Abaixo, a energia é baixa e a fratura é frágil, por clivagem: a superfície sai plana e brilhante, com aspecto granular, e praticamente não há deformação.
O material é o mesmo. A composição é a mesma. O que mudou foi a temperatura.
E nem todos os metais fazem isso. A transição é característica dos metais de estrutura cúbica de corpo centrado — o que inclui o aço carbono comum. Alumínio, cobre e aço inoxidável austenítico, que são de estrutura cúbica de faces centradas, mantêm a tenacidade mesmo em temperatura criogênica. É por isso que tanque de gás liquefeito costuma ser de inox austenítico ou de aço com níquel, e não de aço carbono comum.
Os navios que partiram ao meio
A prática atual nasceu de um desastre industrial em escala difícil de imaginar hoje.
Durante a Segunda Guerra, os Estados Unidos construíram 2.708 navios do programa Liberty, em ritmo recorde, usando cascos soldados em vez de rebitados. A mudança era necessária — rebitar era lento demais — e trouxe junto um efeito que ninguém tinha previsto: num casco rebitado, uma trinca para ao chegar na borda da chapa; num casco soldado, o navio inteiro é uma peça só, e a trinca pode atravessar tudo.
Os cascos começaram a trincar. O relatório final da comissão de investigação, publicado em 1946, registrou que 970 dos 4.694 navios mercantes soldados do programa de emergência sofreram fraturas, e pelo menos doze partiram completamente em dois. O caso mais citado é o do navio-tanque Schenectady, que em 1943 se partiu ao meio atracado no cais, com mar calmo.
A investigação encontrou a combinação que explicava tudo: o aço das chapas tinha temperatura de transição alta — nas chapas onde as fraturas se iniciaram, a temperatura de transição medida ficou numa faixa de 15 °C a 65 °C, com média em torno de 40 °C. Ou seja, nas águas frias do Atlântico Norte no inverno, aquele aço estava operando bem abaixo da sua transição, no patamar frágil, o tempo todo. Some-se a isso o entalhe natural de um canto de escotilha mal projetado e um cordão de solda com defeito, e a trinca tinha tudo de que precisava.
O que o resultado significa, e o que não significa
O Charpy é um ensaio comparativo, não um valor de projeto. Ele não entrega um parâmetro que entre direto num cálculo estrutural: a energia em joules depende da geometria do entalhe, do tamanho do corpo de prova e da velocidade do golpe.
O que ele faz muito bem é três coisas:
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Comparar materiais nas mesmas condições
Dois aços candidatos, mesmo corpo de prova, mesma temperatura. O que absorve mais energia é mais tenaz naquela condição, e a comparação é justa.
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Encontrar a temperatura de transição
Ensaiando a várias temperaturas, levanta-se a curva. É isso que responde se o material serve para a menor temperatura de operação prevista.
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Verificar um critério de aceitação
Muitas especificações pedem uma energia mínima a uma temperatura dada — por exemplo, um valor mínimo em joules a 0 °C ou a −20 °C. O ensaio existe para dizer se passa ou não passa.
O que pedir no relatório
Norma aplicada | ABNT NBR ISO 148-1 ou ASTM E23, com a versão |
Tipo de entalhe | V ou U, e as dimensões do corpo de prova |
Temperatura de ensaio | medida, não nominal, e como foi controlada |
Energia absorvida | de cada corpo de prova, não só a média |
Aparência da fratura | porcentagem de fratura dúctil |
Expansão lateral | em milímetros |
Orientação do corpo de prova | em relação à direção de laminação da chapa |
Esse último item engana muita gente. Uma chapa laminada não tem a mesma tenacidade em todas as direções: corpos de prova retirados transversalmente à laminação costumam absorver bem menos energia que os longitudinais. Dois laboratórios podem entregar valores muito diferentes para a mesma chapa simplesmente por terem cortado os corpos de prova em direções diferentes — e os dois estarem certos.
Também por isso o ensaio se faz em mais de um corpo de prova por condição. A dispersão faz parte do resultado: num material que está perto da zona de transição, dois corpos de prova podem dar valores bastante distintos, e isso é informação sobre o material, não ruído a ser descartado.
Quando a pergunta é quanta carga a peça suporta aplicada devagar, o ensaio é outro — o de tração, assunto de como ler a curva de um ensaio de tração. Quando é quantas vezes ela suporta, é o de fadiga. O Charpy responde a uma terceira pergunta: o que acontece quando a carga chega de uma vez só, e está frio.
Os termos técnicos que aparecem aqui, em português claro.
- Tenacidade
- A capacidade de absorver energia antes de romper. É diferente de resistência: um material pode suportar tensão alta e ainda assim quebrar sem aviso.
- Ensaio de impacto
- Ensaio em que a carga é aplicada de uma vez, por um golpe, em vez de crescer devagar. Mede como o material responde a solicitação rápida.
- Entalhe
- O corte em V feito de propósito no corpo de prova. Ele concentra a tensão e obriga a trinca a nascer num ponto conhecido.
- Transição dúctil-frágil
- A mudança de comportamento que alguns metais sofrem ao esfriar: de absorver muita energia a romper sem deformar, numa faixa estreita de temperatura.
- Patamar superior
- A região de temperatura em que o material absorve bastante energia e a fratura é dúctil.
- Patamar inferior
- A região em que a energia absorvida é baixa e a fratura é frágil, por clivagem.
- Clivagem
- Mecanismo de fratura frágil em que a trinca atravessa os grãos separando planos atômicos. Deixa superfície plana e brilhante, com facetas.
- Fratura dúctil
- Mecanismo em que o material deforma e forma microcavidades antes de romper. Deixa superfície fosca e fibrosa, com bordas inclinadas.
- CCC
- Estrutura cúbica de corpo centrado, do ferro em temperatura ambiente. É a estrutura que apresenta transição dúctil-frágil.
- CFC
- Estrutura cúbica de faces centradas, do alumínio, do cobre e do inox austenítico. Não apresenta a transição: segue tenaz mesmo em frio extremo.
- Energia absorvida
- O resultado do ensaio, em joules. Corresponde à altura que o pêndulo deixou de subir depois de romper o corpo de prova.
- Expansão lateral
- O quanto o corpo de prova alargou na região da fratura. É uma medida complementar de ductilidade, registrada junto com a energia.
Referências
- 01Associação Brasileira de Normas Técnicas. ABNT NBR ISO 148-1 — Materiais metálicos: ensaio de impacto por pêndulo Charpy. Parte 1: Método de ensaio
- 02ASTM International. ASTM E23 — Standard Test Methods for Notched Bar Impact Testing of Metallic Materials
- 03U.S. Navy Department, Board of Investigation. Final Report of a Board of Investigation to Inquire into the Design and Methods of Construction of Welded Steel Merchant Vessels. Government Printing Office, Washington (1946)
- 04DIETER, G. E.. Mechanical Metallurgy. 3. ed. McGraw-Hill (1986)
- 05ASM Handbook, Volume 8: Mechanical Testing and Evaluation. ASM International (2000)
- ensaio Charpy
- tenacidade
- transição dúctil-frágil
- ensaio de impacto
- análise de falha
Sua peça trabalha no frio?
Ensaio de impacto Charpy conforme a ABNT NBR ISO 148-1, com corpos de prova usinados, controle de temperatura e a análise da superfície de fratura junto do resultado.


