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E2MJREngenharia de Materiais e Manufatura

Conteúdo técnico

O que os números do aço significam

1045, 4140, 304, 6061: cada sistema de designação tem uma lógica própria, e aplicar a lógica errada leva a conclusões erradas sobre o material.

Equipe E2M Jr

· 6 min de leitura

Feixes de barras de aço empilhados em um pátio portuário, com a superfície tomada por oxidação superficial.

Quatro dígitos, duas informações

O sistema mais usado em aço para construção mecânica tem quatro dígitos, e a lógica é direta: os dois primeiros dizem de que família é o aço; os dois últimos dizem quanto carbono ele tem, em centésimos de porcento.

Decomposição dos códigos SAE 1045 e 4140, mostrando que os dois primeiros dígitos indicam a família do aço e os dois últimos o teor de carbono.
Decodificando dois aços comuns. A lógica vale para todo o sistema de quatro dígitos.

No Brasil essa designação está normalizada pela ABNT NBR NM 87, que adota a mesma numeração dos sistemas SAE e AISI. Por isso o desenho pode dizer "SAE 1045", "AISI 1045" ou "ABNT 1045" e estar falando do mesmo material.

As famílias mais encontradas:

Prefixo Família Exemplo típico
10xx aço carbono comum 1020, 1045
11xx / 12xx aço de usinagem fácil, com enxofre 1213
41xx cromo-molibdênio 4140
43xx níquel-cromo-molibdênio 4340
51xx / 52xxx cromo 52100, de rolamento
61xx cromo-vanádio 6150
92xx silício-manganês, de molas 9260

Com isso, "4140" deixa de ser um código para decorar: é um aço cromo-molibdênio com 0,40% de carbono. E "1045" é um aço carbono comum com 0,45%.

Por que dois aços com o mesmo carbono não são iguais

O 1045 e o 4140 têm praticamente o mesmo teor de carbono. Como o carbono é o que define a dureza máxima que a martensita pode atingir, os dois chegam a durezas parecidas depois de temperados.

A diferença aparece na profundidade. Numa peça grossa de 1045, o centro não esfria rápido o bastante para formar martensita: fica duro na pele e mole no miolo. O cromo e o molibdênio do 4140 retardam a formação de perlita e dão tempo de a martensita se formar bem mais fundo.

Ou seja: os elementos de liga do prefixo não estão ali para endurecer mais, e sim para fazer o endurecimento chegar onde precisa. É a diferença entre dureza e temperabilidade, explicada em detalhe em por que o mesmo aço pode ser mole ou duro.

Inox e alumínio jogam outro jogo

Aqui está o erro que mais aparece: aplicar a lógica dos quatro dígitos a materiais que não seguem essa regra.

Comparação entre três sistemas de designação: aço carbono SAE de quatro dígitos, aço inoxidável de três dígitos e liga de alumínio de quatro dígitos.
Três famílias, três lógicas. Nenhum dígito significa a mesma coisa nas três.

No aço inoxidável, o sistema tem três dígitos e nenhum deles é teor de carbono. O primeiro indica o grupo — e o grupo diz muito mais sobre o comportamento do material do que o número inteiro:

  • 3xx são austeníticos, com cromo e níquel. Não endurecem por têmpera, não são magnéticos no estado recozido e são os mais usados onde se precisa de resistência à corrosão. O 304 é o padrão; o 316 acrescenta molibdênio e aguenta bem melhor cloreto.
  • 4xx são ferríticos ou martensíticos. São magnéticos, mais baratos e menos resistentes à corrosão. O 430 é ferrítico, de eletrodoméstico; o 420 é martensítico, de faca e instrumento.

Trocar um 316 por um 304 "porque a diferença é pequena" é uma decisão que só parece pequena no número. Em ambiente com cloreto, é a diferença entre a peça durar e a peça furar.

Nas ligas de alumínio, os quatro dígitos voltam, mas com outro significado: só o primeiro tem leitura direta, e indica o principal elemento de liga — 2xxx cobre, 5xxx magnésio, 6xxx magnésio e silício, 7xxx zinco. Os três restantes identificam a liga específica dentro da série, e não têm relação com teor de nada.

E há um detalhe que muda tudo: no alumínio, o estado de tratamento vem num sufixo. Um 6061-O é mole e conformável; um 6061-T6 é bem mais resistente. O material é o mesmo; o sufixo é que diz como ele está.

O que o número não diz

Esta é a parte que mais importa na prática. A designação especifica composição química, e só.

O número também não garante desempenho em corrosão, em fadiga ou em impacto, porque esses dependem de microestrutura, acabamento superficial e tensões residuais. E não diz nada sobre a qualidade do lote: nível de inclusões, segregação e descarbonetação ficam todos fora do código.

O que ler num certificado de material

O certificado que acompanha o lote é onde a designação deixa de ser teoria. Vale saber o que procurar nele:

Designação e norma

o código e a norma sob a qual ele foi emitido — sem a norma, o código fica ambíguo

Número da corrida

identifica a batelada de aço líquido; é o que permite rastrear o lote até a usina

Composição química

elemento por elemento, com os valores medidos — não a faixa da norma

Condição de fornecimento

laminado a quente, trefilado, normalizado, temperado e revenido

Propriedades mecânicas

quando ensaiadas: escoamento, resistência, alongamento, dureza, impacto

Dimensões e massa

para conferir que o certificado é mesmo daquele material

Dois pontos merecem atenção. O primeiro é que o certificado traz os valores daquela corrida, não da peça que está na sua mão — se o material passou por conformação ou tratamento depois disso, as propriedades mecânicas declaradas podem não valer mais. O segundo é que estar dentro da faixa da norma não significa estar igual ao lote anterior: um 1045 com 0,43% e outro com 0,49% de carbono são ambos conformes e se comportam de forma perceptivelmente diferente na têmpera.

Quando vale conferir o que chegou

O certificado do fornecedor declara a composição. Na maior parte das vezes ele está correto — mas há situações em que conferir compensa:

  1. O lote novo se comporta diferente do anterior

    Mesmo código, mesma procedência, resultado diferente na usinagem, na dobra ou no tratamento térmico. Pode ser composição dentro da faixa mas em outra ponta dela, ou pode ser material trocado.

  2. A peça falhou e o material é suspeito

    Confirmar que o material é o especificado é dos primeiros passos de uma análise de falha, e é barato perto de redesenhar uma peça pelo motivo errado.

  3. Material sem rastreabilidade

    Sobra de estoque sem etiqueta, fornecedor novo, peça importada sem certificado. Aqui a análise não é conferência: é a única fonte de informação.

  4. A aplicação é crítica

    Quando a falha tem consequência de segurança ou custo alto de parada, conferir o lote é prática normal, não desconfiança.

A confirmação combina análise química, que diz se a composição bate com a faixa da norma, e metalografia com dureza, que dizem se a condição de fornecimento é a que foi pedida. As duas coisas juntas, porque — como o texto inteiro vem dizendo — o código é composição, e composição não é propriedade.

Dicionário do post

Os termos técnicos que aparecem aqui, em português claro.

Designação
O código que identifica um material dentro de um sistema de classificação. Não é marca nem nome comercial: é uma posição numa tabela normalizada.
SAE
Society of Automotive Engineers, entidade norte-americana cujo sistema numérico para aços foi adotado mundialmente, inclusive pela norma brasileira.
AISI
American Iron and Steel Institute. O sistema de quatro dígitos para aços de construção é praticamente o mesmo da SAE; para inoxidáveis, o sistema de três dígitos é o mais usado.
Elemento de liga
O elemento adicionado de propósito para mudar o comportamento do aço — cromo, níquel, molibdênio, vanádio. Diferente de impureza, que é o que não se conseguiu tirar.
Aço carbono
Aço cujo comportamento é definido essencialmente pelo teor de carbono, sem adição significativa de elementos de liga.
Teor de carbono
A porcentagem de carbono em peso. É o que mais influencia a dureza que o aço pode atingir por têmpera.
Austenítico
Grupo de aços inoxidáveis que mantém a estrutura austenítica em temperatura ambiente, graças ao níquel. Não é magnético e não endurece por têmpera.
Ferrítico
Grupo de inoxidáveis com cromo e pouco ou nenhum níquel. É magnético e mais barato, com resistência à corrosão menor que a dos austeníticos.
Martensítico
Grupo de inoxidáveis com carbono suficiente para endurecer por têmpera. É o inox de faca e de instrumento cirúrgico.
Têmpera do alumínio
No alumínio a palavra tem outro sentido: designa o estado de tratamento da liga, indicado pelo sufixo (O, H, T4, T6) depois dos quatro dígitos.
Certificado de material
O documento do fornecedor que declara a composição química e, às vezes, as propriedades mecânicas do lote entregue.
Especificação
O conjunto de requisitos que o material precisa cumprir. A designação é só uma parte dela: faltam ainda condição de fornecimento, tratamento e requisitos de ensaio.

Referências

  1. 01Associação Brasileira de Normas Técnicas. ABNT NBR NM 87 — Aço carbono e ligados para construção mecânica: designação e composição química (2000)
  2. 02SAE International. SAE J403 — Chemical Compositions of SAE Carbon Steels
  3. 03KRAUSS, G.. Steels: Processing, Structure, and Performance. 2. ed. ASM International (2015)
  4. 04ASM Handbook, Volume 1: Properties and Selection — Irons, Steels, and High-Performance Alloys. ASM International
  5. 05ASM Handbook, Volume 2: Properties and Selection — Nonferrous Alloys and Special-Purpose Materials. ASM International
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  • SAE
  • AISI
  • aço inoxidável
  • ligas de alumínio
  • especificação
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