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E2MJREngenharia de Materiais e Manufatura

Conteúdo técnico

Como ler a curva de um ensaio de tração

O gráfico mais importante da engenharia de materiais, ponto a ponto: o que é cada trecho, qual número o projeto usa e o que o relatório deve trazer.

Equipe E2M Jr

· 8 min de leitura

Corpo de prova chato rompido, ainda preso às garras de uma máquina universal de ensaios, com a estricção visível na região da fratura.

O ensaio, em uma frase

Um corpo de prova usinado em formato padronizado é preso pelas duas pontas e puxado devagar até romper. Durante todo o caminho, a máquina registra duas coisas: a força que está aplicando e o quanto a amostra esticou.

Máquina universal de ensaios com o corpo de prova montado entre as garras
Máquina universal de ensaios. A coluna da esquerda aplica a carga; a amostra fica entre as duas garras, no centro.

É o ensaio mecânico mais antigo e mais usado da engenharia, e continua sendo o primeiro a ser pedido quando alguém precisa saber do que um material é capaz. No Brasil ele é regido pela ABNT NBR ISO 6892-1, idêntica à ISO 6892-1; o equivalente americano, muito citado em desenho e em especificação de cliente, é a ASTM E8/E8M.

O resultado bruto é um gráfico de força por alongamento — e esse gráfico ainda não serve para comparar nada.

De força para tensão: por que o gráfico precisa ser convertido

Uma barra grossa aguenta mais força que uma barra fina do mesmo material. Isso não diz nada sobre o material: diz sobre a barra. Para falar do material, os dois eixos são divididos pelas dimensões iniciais do corpo de prova:

Tensão

força dividida pela área inicial da seção (So)

Deformação

alongamento dividido pelo comprimento inicial de medida (Lo)

Unidades usuais

MPa para tensão; % para deformação

Feita essa conta, a curva deixa de descrever aquela barra e passa a descrever o material. É por isso que o corpo de prova tem um formato definido por norma: para que o resultado de um laboratório possa ser comparado com o de outro.

Uma consequência dessa convenção aparece no fim da curva. A tensão é sempre calculada com a área inicial, mesmo depois de a amostra ter afinado. Por isso o gráfico desce no trecho final, ainda que o material naquele ponto esteja mais resistente do que nunca — ele é chamado de tensão de engenharia justamente porque é uma convenção de engenharia, não a tensão real que o material está sentindo.

A anatomia da curva

Curva tensão-deformação de um metal dúctil com seis pontos numerados: região elástica, limite de escoamento, limite de resistência, estricção, ruptura e área sob a curva.
Curva típica de um metal dúctil. Os símbolos seguem a ABNT NBR ISO 6892-1.

O percurso é sempre o mesmo, e cada trecho responde a uma pergunta diferente:

  1. Trecho reto — a parte que volta

    Tensão e deformação crescem juntas, em linha reta. Se a carga for retirada aqui, o corpo de prova volta ao tamanho que tinha. É o regime em que quase toda peça de engenharia trabalha a vida inteira.

  2. Escoamento — a parte que não volta

    A reta termina. A partir daqui a deformação é permanente: a peça ficou torta e vai continuar torta. É este o número que o dimensionamento usa, porque na maioria das aplicações uma peça permanentemente deformada já falhou, mesmo sem ter quebrado.

  3. Encruamento — o material resiste mais

    A curva continua subindo. Deformar o metal o endurece: a cada passo é preciso mais tensão para continuar deformando. É o mesmo efeito que se usa de propósito em trefilação e em laminação a frio.

  4. Estricção — a deformação se concentra

    No ponto mais alto da curva, a deformação deixa de ser uniforme e passa a se concentrar em uma região, que começa a afinar. Daí em diante a carga necessária cai, porque sobrou menos seção para segurá-la.

  5. Ruptura

    O corpo de prova parte. O alongamento total e a redução de área medidos no corpo de prova rompido são as duas medidas diretas de ductilidade.

A propriedade que o tratamento térmico não muda

Esta costuma ser a maior surpresa de quem está começando: o módulo de elasticidade do aço é praticamente o mesmo em qualquer aço.

Um aço recozido, mole, e um aço temperado, com três vezes mais dureza, têm o mesmo E — em torno de 200 a 210 GPa. Tratamento térmico, elementos de liga e encruamento mudam o limite de escoamento, o limite de resistência, a ductilidade e a tenacidade. O módulo, não.

O alumínio tem módulo de cerca de 70 GPa: cerca de um terço do aço. Uma peça de alumínio com a mesma geometria de uma de aço vai fletir aproximadamente três vezes mais, independentemente da liga escolhida.

Onde exatamente começa o escoamento

O limite de escoamento é o número mais importante da curva, e também o mais sutil de obter — porque em boa parte dos materiais a reta não termina em um ponto óbvio.

Comparação entre um aço com patamar de escoamento definido, com os limites superior e inferior, e um material sem patamar, em que se usa a construção do desvio de 0,2 por cento.
Com patamar, o escoamento se aponta no gráfico. Sem patamar, ele é obtido por uma convenção.

Nos aços de baixo carbono existe um fenômeno visível: a tensão cai um pouco e o material escoa por um trecho sem que a carga aumente. Nesse caso registram-se os limites superior (ReH) e inferior (ReL) de escoamento, e não há ambiguidade.

A maioria dos materiais não faz isso. Alumínio, cobre, aço temperado e aço inoxidável austenítico passam do elástico para o plástico de forma gradual, sem nenhum ponto que se possa apontar. A solução é uma convenção: traça-se uma reta paralela ao trecho elástico, deslocada de 0,2% de deformação, e o escoamento é onde essa reta cruza a curva. O resultado se chama Rp0,2 — o 0,2 no nome é literalmente o deslocamento usado.

Não há nada de fundamental no valor 0,2%. É um acordo: deformação permanente pequena o suficiente para ser desprezível na maioria das peças, e grande o suficiente para ser medida com segurança.

Resistência não é tenacidade

Dois materiais com o mesmo limite de resistência podem se comportar de formas opostas na hora de quebrar.

Três curvas tensão-deformação comparadas: um material dúctil, um de alta resistência e um frágil.
Altura, largura e área da curva respondem a perguntas diferentes.

A altura da curva é quanta tensão o material aguenta. A largura é quanto ele deforma antes de romper. A área embaixo dela é a energia absorvida até a ruptura — e é essa área que decide se a peça vai se deformar visivelmente antes de falhar ou partir sem aviso.

Um material frágil pode ter resistência alta e ainda assim ser a pior escolha para um componente sujeito a impacto ou a sobrecarga eventual, porque não tem para onde escoar: a primeira trinca atravessa a peça. Especificar material olhando só a coluna de resistência da tabela é o erro mais comum que esse gráfico ajuda a evitar.

Esse raciocínio é o mesmo que aparece em por que o mesmo aço pode ser mole ou duro: aumentar a dureza quase sempre custa tenacidade, e o projeto precisa escolher conscientemente onde ficar.

Por que dois corpos de prova do mesmo lote dão números diferentes

Nenhum ensaio devolve o mesmo número duas vezes, e isso não é defeito. O que muda, e quanto muda, é parte do resultado:

  • O comprimento que foi medido. O alongamento depende do comprimento de medida inicial (Lo). Em um corpo de prova proporcional, Lo é derivado da área da seção. Alongamentos obtidos com Lo diferentes não são comparáveis, e é por isso que a norma e o Lo precisam estar no relatório.
  • Como a deformação foi medida. Se for tomada pelo deslocamento da travessa da máquina, o número inclui a deformação da própria máquina e das garras, e o módulo sai errado. Para medir E com alguma seriedade é preciso extensômetro preso ao corpo de prova.
  • O começo da curva. Os primeiros instantes do ensaio costumam mostrar um trecho encurvado que não é o material: é o acomodamento da garra e o alinhamento da amostra. A norma prevê a correção desse trecho, e quem lê a curva precisa saber reconhecê-lo.
  • A velocidade do ensaio. Puxar mais rápido eleva os valores de escoamento e de resistência da maioria dos metais. A norma define as taxas aceitáveis exatamente para que isso não vire variável solta.
  • A preparação do corpo de prova. Risco de usinagem, raio de concordância mal feito ou aquecimento durante a usinagem mudam o resultado — e tendem a mudá-lo para baixo.

Por isso ensaio de tração se faz em mais de um corpo de prova. Um único valor, sem dispersão, não permite separar o material do ensaio.

O que um relatório precisa trazer

Um relatório que só entrega uma tabela com três números não permite conferir nada. O mínimo útil é:

Norma aplicada

e a versão dela

Geometria do corpo de prova

com So e Lo declarados

Como a deformação foi medida

extensômetro ou travessa

Velocidade de ensaio

conforme o método escolhido na norma

Número de corpos de prova

com o resultado individual de cada um

A curva

não só os valores extraídos dela

A curva anexada é o item que mais se perde e o que mais vale. É nela que aparecem o trecho de acomodamento, um escorregamento de garra, uma ruptura fora da região útil — tudo que um número isolado esconde. Quando a peça falhou em serviço, é essa curva que vai ser comparada com a do material que deveria ter sido entregue.

E quando a pergunta não é "quanto ele aguenta uma vez", mas "quantas vezes ele aguenta", o ensaio é outro: é o de fadiga, que é o assunto de a fadiga metálica que derrubou o Comet.

Dicionário do post

Os termos técnicos que aparecem aqui, em português claro.

Tensão
A força dividida pela área sobre a qual ela age. É o que permite comparar materiais: 10 kN em uma barra fina e em uma barra grossa são solicitações muito diferentes.
Deformação
O quanto a peça esticou dividido pelo comprimento que ela tinha antes. Por ser uma proporção, não tem unidade — costuma aparecer em porcentagem.
Corpo de prova
A amostra usinada em formato padronizado para o ensaio. O formato é definido por norma justamente para que resultados de laboratórios diferentes possam ser comparados.
Módulo de elasticidade (E)
A rigidez do material: quanta tensão é preciso aplicar para obter uma deformação elástica. É a inclinação do trecho reto da curva.
Limite de escoamento
A tensão a partir da qual a deformação deixa de ser reversível. Passou daqui, a peça não volta mais à forma original.
Limite de resistência
A maior tensão registrada no ensaio. Não é a tensão de projeto: quando ela é atingida, a peça já está deformada de forma permanente.
Encruamento
O endurecimento que o metal sofre ao ser deformado plasticamente. É por isso que a curva continua subindo depois do escoamento.
Estricção
O estreitamento localizado que aparece no corpo de prova pouco antes da ruptura. A partir dali, toda a deformação se concentra naquele ponto.
Ductilidade
A capacidade de deformar bastante antes de romper. Um material dúctil avisa que vai quebrar; um frágil, não.
Tenacidade
A energia que o material absorve até romper. No gráfico, é a área embaixo da curva.
Extensômetro
O instrumento preso ao corpo de prova que mede o alongamento diretamente nele, sem incluir a deformação da própria máquina.
Tensão de engenharia
A tensão calculada sempre com a área original do corpo de prova. É a convenção do ensaio — por isso a curva desce no fim, ainda que o material esteja ficando mais resistente.

Referências

  1. 01Associação Brasileira de Normas Técnicas. ABNT NBR ISO 6892-1 — Materiais metálicos: ensaio de tração. Parte 1: Método de ensaio à temperatura ambiente (2024)
  2. 02ASTM International. ASTM E8/E8M — Standard Test Methods for Tension Testing of Metallic Materials
  3. 03DIETER, G. E.. Mechanical Metallurgy. 3. ed. McGraw-Hill (1986)
  4. 04CALLISTER, W. D.; RETHWISCH, D. G.. Ciência e Engenharia de Materiais: Uma Introdução. LTC
  5. 05ASM Handbook, Volume 8: Mechanical Testing and Evaluation. ASM International (2000)
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