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E2MJREngenharia de Materiais e Manufatura

Conteúdo técnico

DRX: como se descobre a fase de um material

A difração de raios X não diz quais elementos existem na amostra — diz como eles estão arranjados. É por isso que ela separa grafite de diamante.

Equipe E2M Jr

· 7 min de leitura

Goniômetro de um difratômetro de raios X de pó, com o porta-amostra ao centro e os braços do tubo e do detector inclinados.

Mesma composição, materiais opostos

Grafite e diamante são feitos exatamente do mesmo elemento: carbono, e nada mais. Um risca vidro, o outro risca papel. Um conduz eletricidade, o outro não.

Nenhuma análise química consegue separar os dois. Ela devolveria "100% carbono" para ambos, e estaria certa nas duas vezes. O que difere não é do que eles são feitos, e sim como os átomos estão arrumados — e é exatamente essa pergunta que a difração de raios X responde.

O mesmo vale em casos bem menos exóticos do dia a dia industrial:

  • Um aço temperado e o mesmo aço recozido têm composição idêntica e comportamento totalmente diferente, porque as fases presentes são outras.
  • Um pigmento de dióxido de titânio pode estar na forma anatase ou rutilo. Mesma fórmula química, resistência ao intemperismo bem diferente.
  • Um cimento, um catalisador, um revestimento cerâmico: em todos, o que decide o desempenho é a fase, não a lista de elementos.

Por que só alguns ângulos devolvem sinal

Em um material cristalino, os átomos estão organizados em planos paralelos e igualmente espaçados — e essa regularidade é o que transforma o material em uma espécie de régua.

Quando um feixe de raios X incide sobre esses planos, cada um devolve um pouco do feixe. Os raios que vêm de planos diferentes percorrem caminhos de comprimentos diferentes, e aí entra a parte decisiva: se essa diferença de caminho der um número inteiro de comprimentos de onda, as ondas se somam e o detector registra um sinal forte. Em qualquer outro ângulo, elas se cancelam e não há nada.

Diagrama da lei de Bragg: dois raios X paralelos atingem planos atômicos vizinhos; o que desce até o plano de baixo percorre um caminho a mais, destacado em vermelho.
O raio que desce até o plano seguinte percorre um caminho a mais. Quando esse extra equivale a um número inteiro de comprimentos de onda, aparece um pico.

Daí vem a utilidade: o comprimento de onda é conhecido, porque é escolhido pelo equipamento. O ângulo é medido. Sobra uma única incógnita — a distância entre os planos. E esse conjunto de distâncias é uma característica da fase, tão específica quanto uma impressão digital.

É por isso que o ensaio consegue dizer qual composto está ali, e não apenas quais elementos.

O que se lê no difratograma

O resultado do ensaio é um gráfico de intensidade por ângulo. Cada característica dele carrega uma informação diferente.

Difratograma esquemático com picos estreitos de um material cristalino e, abaixo, a elevação larga típica de um material amorfo.
Posição, altura e largura respondem a perguntas distintas — e a ausência de picos também é resposta.

A posição dos picos identifica a fase. O conjunto de ângulos é comparado com padrões de referência catalogados, e o que bate é o que está na amostra. Uma mistura aparece como a soma dos padrões de cada fase.

A altura relativa indica quanto de cada fase existe. Para transformar isso em porcentagem confiável é preciso um tratamento mais cuidadoso — o refinamento de Rietveld é o caminho usual —, mas mesmo a leitura direta já separa "fase principal" de "traço".

A largura tem dois significados que precisam ser separados com cuidado: picos alargam quando os cristais são muito pequenos e quando a rede está deformada, por exemplo depois de encruamento ou de jateamento. Atribuir a largura à causa errada é um erro comum de interpretação.

E a ausência de picos também responde. Uma elevação larga, sem pico definido, é material amorfo: não existe arranjo regular, então não existe ângulo privilegiado. Em polímero semicristalino, picos e elevação aparecem juntos — e a proporção entre eles é uma medida de cristalinidade.

DRX, EDS e FRX não respondem a mesma coisa

Esta confusão é frequente e custa ensaio repetido.

Técnica O que ela entrega Exemplo de resposta
DRX quais fases e compostos estão presentes "é rutilo, não anatase"
EDS (acoplado ao MEV) quais elementos existem, e em que ponto da imagem "tem cloro no fundo do pite"
FRX a composição elementar do conjunto da amostra "0,8% de cromo"

Se a pergunta começa com "qual elemento", a resposta está em EDS ou FRX. Se começa com "qual composto" ou "qual estrutura", é DRX. Em análise de falha, com frequência se usa mais de uma: o elemento encontrado levanta a hipótese e a fase confirma.

Onde o DRX resolve, fora do metal

A técnica nasceu na cristalografia e se espalhou por praticamente toda indústria que depende de material. Alguns usos frequentes:

  • Cimento e materiais de construção. A proporção entre as fases do clínquer define pega e resistência. O DRX quantifica essa proporção, coisa que nenhuma análise química faz.
  • Cerâmica e refratário. Identificar as fases presentes e as que se formaram em serviço explica desgaste prematuro e trinca térmica.
  • Pigmentos e cargas. Além do caso anatase e rutilo, a difração separa carbonato de sulfato, distingue tipos de argila e verifica se a carga declarada é a entregue.
  • Polímeros. Mede o grau de cristalinidade e identifica a forma cristalina, que em alguns polímeros muda a rigidez sem mudar a composição.
  • Catalisadores e pós metálicos. O alargamento dos picos estima o tamanho de cristalito, que costuma ser o parâmetro que controla a atividade.
  • Corrosão e falhas. Identificar de que é feito o produto de corrosão aponta o agente agressivo: óxido, sulfeto, cloreto e carbonato dão padrões distintos.

Em todos esses casos a pergunta tem a mesma forma: não é de que elementos isso é feito, mas em que arranjo eles estão — e é só isso que separa o DRX das técnicas de composição.

Como a amostra deve chegar

O ensaio de pó é o mais comum e o mais robusto, porque o material moído apresenta cristais em todas as orientações e todos os planos acabam contribuindo.

Pó

cerca de 1 g, moído fino e homogêneo

Peça sólida

uma superfície plana de 1 a 2 cm, limpa e sem recobrimento

Preparação

feita no laboratório — moagem excessiva deforma a rede e alarga os picos

Identificação

lote, origem e o que se suspeita encontrar

Amostra de referência

muito recomendada quando a pergunta é "o que mudou?"

Uma observação que evita retrabalho: em peça sólida com textura — chapa laminada, peça forjada, revestimento depositado —, os cristais não estão orientados ao acaso, e as alturas dos picos ficam distorcidas. A identificação da fase continua válida; a estimativa de proporção, não. Diga ao laboratório como a peça foi processada.

O caso mais comum em aço: austenita retida

Depois da têmpera, nem toda a austenita vira martensita. O que sobra fica retido na peça — e é uma fase instável, que pode se transformar depois, em serviço, mudando dimensão e dureza.

Nenhum ensaio de dureza mostra isso de forma direta. A metalografia consegue revelar, com ataque adequado, mas quantificar é difícil. O DRX quantifica: há procedimento normalizado para isso na ASTM E975. É o tipo de pergunta em que a difração não é uma entre várias opções — é a técnica indicada.

É também o complemento natural da microestrutura revelada no microscópio, assunto de por que o mesmo aço pode ser mole ou duro: a metalografia mostra o que está lá, a difração diz quanto.

Dicionário do post

Os termos técnicos que aparecem aqui, em português claro.

Fase
Uma porção do material com estrutura e composição próprias. Dois materiais podem ter os mesmos elementos químicos e fases completamente diferentes.
Cristalino
Material cujos átomos se repetem em um arranjo regular, como tijolos empilhados em padrão. É essa regularidade que a difração enxerga.
Amorfo
Material sem arranjo regular de longo alcance. O vidro é o exemplo clássico, e a parte não organizada de um polímero também é amorfa.
Plano cristalino
Um dos muitos planos paralelos que se pode traçar pelos átomos de um cristal. Cada família de planos tem um espaçamento próprio.
Distância interplanar (d)
O espaçamento entre planos vizinhos de uma mesma família. É o que o ensaio realmente mede, e o que identifica a fase.
Lei de Bragg
A relação que liga o ângulo em que apareceu sinal ao espaçamento entre os planos de átomos. Publicada em 1913, é a base de toda a técnica.
Difratograma
O gráfico de saída do ensaio: intensidade de sinal em função do ângulo. É nele que se lê a resposta.
Pico de difração
A elevação estreita no difratograma, correspondente a um ângulo em que os raios se somaram em vez de se cancelar.
Ângulo 2θ
O ângulo entre o feixe que entra e o que chega ao detector. É a escala horizontal do difratograma, por convenção do equipamento.
Refinamento de Rietveld
Método de cálculo que ajusta um difratograma simulado ao medido, permitindo estimar a proporção entre fases em vez de só identificá-las.
Austenita retida
A austenita que não virou martensita durante a têmpera e ficou presa na peça. Afeta dureza e estabilidade dimensional, e é quantificada por DRX.
Tamanho de cristalito
A dimensão dos domínios cristalinos que difratam de forma coerente. Quanto menores, mais largos ficam os picos.

Referências

  1. 01CULLITY, B. D.; STOCK, S. R.. Elements of X-Ray Diffraction. 3. ed. Prentice Hall (2001)
  2. 02ASTM International. ASTM E975 — Standard Practice for X-Ray Determination of Retained Austenite in Steel with Near Random Crystallographic Orientation
  3. 03CALLISTER, W. D.; RETHWISCH, D. G.. Ciência e Engenharia de Materiais: Uma Introdução. LTC
  4. 04ASM Handbook, Volume 10: Materials Characterization. ASM International
  5. 05YOUNG, R. A. (ed.). The Rietveld Method. Oxford University Press (1993)
  • DRX
  • difração de raios X
  • caracterização
  • fases cristalinas
  • lei de Bragg
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Difração de raios X nos laboratórios da EESC-USP: identificação de fases, estimativa de proporção e verificação de amorfo, com o difratograma e a interpretação no relatório.