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E2MJREngenharia de Materiais e Manufatura

Conteúdo técnico

DSC, TGA e DMA: o que cada análise térmica mede

Três ensaios que aquecem a amostra e respondem perguntas diferentes: do que o material é feito, até que temperatura ele serve e quanta rigidez ele perde.

Equipe E2M Jr

· 6 min de leitura

Ilustração técnica: traçados sobrepostos de curvas de análise térmica, com degraus e picos.

Três ensaios que começam igual

Nos três, a amostra é colocada num forno e aquecida de forma controlada. A diferença está no que se mede enquanto isso acontece:

Ensaio O que o equipamento acompanha Pergunta que responde
DSC o calor que entra e sai da amostra Em que temperatura o material muda de estado, e quanto dele está organizado?
TGA a massa da amostra De que o material é feito, e até que temperatura ele aguenta?
DMA a rigidez sob uma força que oscila Quanta rigidez ele ainda tem na temperatura de trabalho?

São complementares, não concorrentes. Uma caracterização completa de polímero costuma usar os três, e cada um custa e demora de forma diferente — então vale saber qual deles já resolve a sua dúvida.

DSC: onde o material muda de estado

O DSC compara o calor necessário para aquecer a sua amostra com o necessário para aquecer uma referência vazia. Tudo que o material faz ao aquecer consome ou libera energia, e aparece como um desvio na curva.

Curva de DSC com o degrau da transição vítrea, o pico exotérmico de cristalização e o pico endotérmico de fusão identificados.
Os três eventos que aparecem na maioria dos polímeros semicristalinos.

A transição vítrea é um degrau, não um pico — e é o evento mais útil de todos. Abaixo dela o polímero é rígido e quebradiço; acima, flexível e com tendência a deformar sob carga. Em muitos componentes, a temperatura máxima de uso é definida pela Tg, não pela fusão.

A fusão é um pico que absorve calor. A posição dele ajuda a identificar o polímero, e a área sob ele dá a cristalinidade — quanto do material estava organizado.

A cristalização a frio, quando aparece, é um achado. Ela significa que o material não teve tempo de se organizar durante a moldagem e está fazendo isso agora, no ensaio. Numa peça real, essa organização pode acontecer lentamente em serviço, mudando dimensão e rigidez com o tempo.

TGA: do que o material é feito

Aqui a amostra fica sobre uma balança de precisão dentro do forno. Conforme a temperatura sobe, cada componente sai em uma faixa diferente — e cada saída é um degrau na curva.

Curva de TGA mostrando a perda de massa em degraus: umidade e voláteis, decomposição do polímero, queima do negro de fumo e resíduo inorgânico.
Cada degrau é um componente deixando a amostra. A altura do degrau é quanto dele havia.

É quase uma análise de composição por via térmica. Um composto com 30% de fibra de vidro mostra um patamar final em torno de 30% da massa inicial — e isso é conferível contra a especificação sem precisar dissolver nada.

O truque que faz esse ensaio render é a troca de atmosfera. O aquecimento começa sob nitrogênio, que impede combustão: o polímero se decompõe, mas negro de fumo e grafite ficam. Depois troca-se para ar ou oxigênio, e aí essa parte queima. O que sobra no fim é só o inorgânico. Dois degraus que seriam um só viram dois, e a conta fecha.

O outro uso frequente é mais direto: onde a curva começa a cair é a temperatura em que o material começa a se degradar. Se o seu processo de injeção trabalha perto demais desse ponto, o TGA mostra isso em um gráfico.

DMA: quanta rigidez sobrou

Enquanto aquece, o DMA aplica uma força que vai e volta muitas vezes por segundo e mede como o material responde. Parte da energia volta, como numa mola; parte se perde, como num amortecedor.

Curva de DMA mostrando a queda do módulo de armazenamento e o pico da tangente delta na região da transição vítrea.
A rigidez despenca na transição vítrea. O pico de tan δ marca onde isso acontece.

A diferença prática para o DSC é que o DMA entrega um número de engenharia: a rigidez naquela temperatura. O catálogo do fornecedor informa o módulo a 23 °C; se a peça trabalha a 80 °C, esse número pode já não valer. O DMA mostra a curva inteira.

Por ser muito mais sensível, o DMA enxerga transições que o DSC não detecta — o que é especialmente útil em termofixos, compósitos e materiais muito reticulados, onde o degrau de Tg no DSC é fraco demais para medir com confiança.

Qual pedir para o seu caso

  1. "O lote novo está mais quebradiço que o anterior"

    Comece por DSC comparando os dois lotes, com o bom como referência. Diferença de cristalinidade ou de Tg explica boa parte dos casos. Se a suspeita é de material reprocessado ou de carga trocada, acrescente TGA.

  2. "Preciso saber se o composto tem a carga que foi especificada"

    TGA resolve direto, com troca de atmosfera para separar carga orgânica de inorgânica.

  3. "A peça deforma em serviço, mas passa no ensaio em bancada"

    DMA, varrendo a faixa de temperatura real de trabalho. É comum a peça estar operando acima da Tg sem que ninguém tenha percebido.

  4. "Não sei nem que polímero é este"

    DSC dá a temperatura de fusão, que restringe bastante as possibilidades, e FTIR fecha a identificação. Análise térmica diz como o material se comporta; a espectroscopia diz o que ele é.

O que o relatório precisa trazer

Norma aplicada

ISO 11357, ISO 11358, ISO 6721 ou a ASTM equivalente

Massa e forma da amostra

a geometria influencia o resultado

Taxa de aquecimento

em °C por minuto

Atmosfera

e em que temperatura ela foi trocada, se foi

Qual aquecimento

primeiro ou segundo, no caso do DSC

Convenção usada

como a Tg foi lida: ponto médio do degrau, pico de tan δ, início da queda de E′

A curva

não só as temperaturas extraídas dela

Sem esses dados, dois relatórios do mesmo material não são comparáveis — e é justamente a comparação entre lotes, entre fornecedores ou entre o antes e o depois de um ajuste de processo que costuma motivar o ensaio.

A lógica é a mesma de qualquer outro ensaio de material: o número só vale junto com as condições em que foi obtido. Vale aqui como vale em como ler a curva de um ensaio de tração.

Dicionário do post

Os termos técnicos que aparecem aqui, em português claro.

Análise térmica
Família de ensaios em que a amostra é aquecida de forma controlada enquanto se mede alguma propriedade dela. O que muda de um ensaio para o outro é qual propriedade se acompanha.
Transição vítrea (Tg)
A temperatura em que a parte desorganizada de um polímero deixa de ser rígida e passa a ter mobilidade. Não é fusão: o material amolece sem virar líquido.
Temperatura de fusão (Tm)
A temperatura em que a parte organizada de um polímero semicristalino se desfaz. Polímero totalmente amorfo não tem fusão definida.
Cristalinidade
A fração do polímero que está organizada em regiões ordenadas. Quanto maior, mais rígido, mais resistente a solvente e menos transparente o material tende a ser.
Semicristalino
Polímero que tem regiões organizadas e regiões desorganizadas convivendo. Polipropileno, polietileno e náilon são exemplos comuns.
Evento endotérmico
Aquele em que o material absorve calor para acontecer, como a fusão. Aparece como um pico na curva de DSC.
Evento exotérmico
Aquele em que o material libera calor, como a cristalização ou a oxidação. Aparece como um pico para o lado oposto.
Estabilidade térmica
A temperatura a partir da qual o material começa a se decompor. Em TGA, é onde a massa começa a cair de forma consistente.
Carga
O material adicionado ao polímero para mudar preço ou propriedade: fibra de vidro, talco, carbonato de cálcio, negro de fumo.
Módulo de armazenamento (E′)
A rigidez que o material devolve quando é deformado. Em DMA, é a parte da resposta que se comporta como mola.
Tangente delta (tan δ)
A razão entre a energia que o material dissipa e a que ele devolve. O pico dela marca a transição vítrea.
Atmosfera do ensaio
O gás que circula na câmara durante o aquecimento. Nitrogênio impede a queima; oxigênio ou ar permitem. Trocar o gás no meio do ensaio é o que separa carga orgânica de resíduo inorgânico.

Referências

  1. 01International Organization for Standardization. ISO 11357 — Plastics: Differential scanning calorimetry (DSC)
  2. 02International Organization for Standardization. ISO 11358 — Plastics: Thermogravimetry (TG) of polymers
  3. 03International Organization for Standardization. ISO 6721 — Plastics: Determination of dynamic mechanical properties
  4. 04ASTM International. ASTM D3418 — Standard Test Method for Transition Temperatures and Enthalpies of Fusion and Crystallization of Polymers by Differential Scanning Calorimetry
  5. 05ASTM International. ASTM E1131 — Standard Test Method for Compositional Analysis by Thermogravimetry
  6. 06ASTM International. ASTM E1640 — Standard Test Method for Assignment of the Glass Transition Temperature By Dynamic Mechanical Analysis
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