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E2MJREngenharia de Materiais e Manufatura

Caso real do mercado

A fadiga metálica que derrubou o Comet

Em 1954, dois jatos se desintegraram em voo. A investigação pôs uma fuselagem inteira dentro de um tanque d'água — e mudou o projeto estrutural.

Equipe E2M Jr

· 10 min de leitura

Painel de fuselagem do Comet G-ALYU exposto no RAF Museum Cosford, com os recortes das janelas e a rasgadura da falha por fadiga.

O avião que estava dez anos à frente

Em 2 de maio de 1952, um De Havilland DH.106 Comet da BOAC decolou de Londres para Joanesburgo com passageiros pagantes a bordo. Era o primeiro voo comercial a jato da história. O Comet voava mais alto, mais rápido e muito mais silencioso que qualquer concorrente a hélice, e a indústria britânica abriu uma vantagem que parecia de uma década.

Comet 1 da BOAC parado no aeroporto de Entebbe, em Uganda, em 1952
Um Comet 1 da BOAC em Entebbe, Uganda, em 1952, na rota Londres–Joanesburgo. Fotografia oficial do Ministry of Information britânico (Imperial War Museums, TR 6113), em domínio público.

Voar alto é a origem da vantagem e também do problema. Para manter a cabine habitável a 12 mil metros, ela é inflada: o Comet 1 trabalhava com uma diferença de pressão de 8,25 lb/pol² (cerca de 57 kPa) entre dentro e fora, o equivalente a manter a cabine na altitude de 2.400 metros. A fuselagem era um vaso de pressão de parede fina — chapa de liga de alumínio DTD 546B com 0,7 mm no topo e na parte de baixo, e 0,9 mm nas laterais.

A De Havilland não foi descuidada com isso. A norma britânica da época exigia menos do que a empresa adotou: a cabine foi projetada para 2,5 vezes a pressão de trabalho e ensaiada a 2 vezes. Em um ensaio de pressão, a estrutura passou com folga.

Só que um vaso de pressão de avião não é inflado uma vez. É inflado e esvaziado a cada voo.

Os dois acidentes que pararam a frota

Data Aeronave O que aconteceu Mortes
2 mai 1953 G-ALYV Desintegração perto de Calcutá, atribuída na época a sobrecarga em tempestade severa 43
10 jan 1954 G-ALYP Desintegração em voo após decolar de Roma, ao largo da ilha de Elba 35
8 abr 1954 G-ALYY Desintegração em voo após decolar de Roma, perto de Nápoles 21

Depois do acidente de janeiro, a frota foi parada e recebeu cerca de 60 modificações, baseadas nas hipóteses disponíveis — incêndio, falha de comando, descontrole. Nenhuma delas era a causa. Os Comets voltaram a voar em março. Três semanas depois, o G-ALYY caiu. O certificado de aeronavegabilidade de toda a frota foi cassado, e a investigação virou um dos maiores esforços de engenharia forense já montados.

O G-ALYP tinha acumulado 1.290 voos pressurizados em 3.681 horas de operação. Era um avião praticamente novo.

A investigação: um avião inteiro dentro de um tanque d'água

O Royal Aircraft Establishment, em Farnborough, sob direção de Sir Arnold Hall, atacou o problema por dois caminhos ao mesmo tempo.

  1. Recuperar os destroços do fundo do Mediterrâneo

    A Marinha Real resgatou os destroços do G-ALYP ao largo de Elba. Cerca de dois terços da aeronave foram remontados sobre uma armação de madeira em Farnborough, peça por peça, para reconstruir a sequência da ruptura.

  2. Pressurizar uma fuselagem real até ela quebrar

    Uma aeronave da frota, a G-ALYU, foi fechada dentro de um tanque e submersa em água. Ciclos de pressurização e despressurização foram aplicados de forma acelerada, simulando voos. A água serve para dois propósitos: o ensaio fica seguro, porque a água não é compressível e não libera energia explosiva ao romper, e o vazamento denuncia a trinca.

  3. Medir a tensão onde ninguém tinha medido

    Extensômetros instalados em torno dos recortes mostraram que a tensão perto das aberturas era muito maior do que a prevista no projeto — em alguns pontos, duas a três vezes a tensão da chapa longe dali.

  4. Comparar as duas evidências

    A fratura obtida no tanque e a fratura resgatada do mar foram comparadas. A mesma assinatura em ambas é o que transformou a hipótese em conclusão.

O que o tanque mostrou

A fuselagem foi reparada e o ensaio continuou. Em uma segunda falha, já com 5.546 pressurizações no total, rompeu o painel da fuselagem traseira — o painel que está na fotografia de capa deste post, hoje exposto no RAF Museum Cosford, com a rasgadura preservada.

Detalhe do painel de ensaio do G-ALYU: a chapa rasgada entre os recortes das janelas 7 e 8.
No ensaio: a ruptura no painel traseiro do G-ALYU, partindo do canto do recorte.
Fragmento de fuselagem do G-ALYP resgatado do Mediterrâneo, com dois recortes de janela e fileiras de rebites.
No acidente: fragmento do G-ALYP resgatado do Mediterrâneo, com as fileiras de rebites em volta dos recortes.

É a mesma fratura, pelo mesmo mecanismo, em dois contextos diferentes: um ensaio controlado e um acidente real. Essa correspondência é o que sustenta uma conclusão de análise de falha — não a opinião do engenheiro mais experiente da sala.

Por que o canto importa

A força que atravessa uma chapa pode ser desenhada como um conjunto de linhas, do mesmo jeito que se desenha a água correndo em um rio. Em uma chapa lisa, as linhas são paralelas e igualmente espaçadas: a tensão é a mesma em todo lugar. Quando existe um furo ou um recorte, as linhas precisam contorná-lo — e onde elas se amontoam, a tensão sobe.

Diagrama comparando o caminho da força em um recorte de canto vivo e em um recorte de canto arredondado.
Em um canto vivo, as linhas de força se apertam num ponto e o pico de tensão dispara. Um raio de canto espalha o mesmo carregamento por uma área maior.

É por isso que as janelas dos aviões comerciais são ovais até hoje, e é daí que vem a versão popular da história: "o Comet caiu porque tinha janelas quadradas". A frase é um bom resumo didático da concentração de tensão. Como descrição do que aconteceu, ela é incompleta.

Quando os destroços do G-ALYP foram remontados, a origem da trinca não estava em uma janela de passageiro. Estava no canto de uma abertura no teto da cabine — a janela do radiogoniômetro automático (ADF), a antena de navegação. E, mais especificamente, a trinca tinha nascido em um furo de rebite naquele canto.

O mesmo trabalho estimou que o defeito inicial do G-ALYP tinha cerca de 0,1 mm — um décimo de milímetro, invisível a olho nu e indetectável pela inspeção da época. A partir dali, a trinca cresceu um pouco a cada voo durante centenas de ciclos, até atingir o tamanho crítico. Então a cabine abriu de uma vez.

Vale registrar outra correção, porque ela muda a lição: fadiga não era um fenômeno desconhecido em 1954. Ela já havia sido descrita por Wilhelm Albert em 1837 e era rotina na investigação de eixos ferroviários quebrados desde a década de 1840. O que faltava não era o conceito — era um jeito confiável de analisar e de ensaiar uma estrutura pressurizada contra ele.

Por que o ensaio de certificação mentiu

Esta é a parte mais desconfortável do caso, e a mais útil para quem ensaia material hoje.

A autoridade britânica exigia que o fabricante de uma aeronave pressurizada ensaiasse uma fuselagem representativa por pelo menos 15 mil ciclos. A De Havilland cumpriu: em julho de 1953, pressurizou e despressurizou sua fuselagem de ensaio 16 mil vezes. O resultado dizia que a estrutura tinha vida de sobra.

O problema é que esse ensaio foi feito na mesma fuselagem que já havia sido levada à pressão de prova, duas vezes a pressão de trabalho. Aquela sobrecarga deformou plasticamente o material nos cantos dos recortes. O metal encruou e ficou com um estado de tensão residual favorável justamente nos pontos críticos — o que melhorou a resistência à fadiga daquela peça específica.

Gráfico de barras comparando 16 mil ciclos no ensaio do protótipo com 5.546, 3.057, 1.290 e 1.272 ciclos nos casos reais.
O ensaio aprovado prometia 16 mil ciclos. A frota entregou uma fração disso. O último valor é o cálculo refeito em 1997 por mecânica da fratura, a partir de um defeito inicial de 0,1 mm — 1.272 ciclos, contra 1.290 voos reais do G-ALYP.

O corpo de prova não era representativo da frota, e ninguém percebeu. O ensaio estava formalmente correto, foi conduzido com rigor e produziu um número que não valia para nenhum avião de série.

É um erro que não ficou em 1954. Ele reaparece toda vez que alguém ensaia uma amostra que passou por um histórico diferente do que a peça real vai ver: um corpo de prova usinado de um lote especial, uma amostra que já foi pré-carregada, uma peça retirada de uma região da ferramenta que não representa a produção. O ensaio devolve um número verdadeiro — sobre a amostra errada.

O que mudou na engenharia

A partir de 1º de julho de 1956, a norma britânica de aeronavegabilidade (BCAR D3-7) passou a exigir que o ensaio de carregamento repetido fosse feito em uma cabine pressurizada que não tivesse sido usada antes em ensaio de resistência. Simples, direto, e nascido exatamente desse erro.

A mudança mais profunda, porém, foi de filosofia:

Filosofia Premissa Limitação que o Comet expôs
Safe-life A peça não terá trinca dentro da vida calculada; troque antes A vida calculada depende de um ensaio que pode não representar a peça real
Fail-safe Admite-se a trinca: a estrutura tem caminhos de carga alternativos e barreiras que travam o avanço Exige projetar a estrutura inteira para conviver com dano
Tolerância ao dano A trinca existe; calcula-se quanto ela cresce por ciclo e inspeciona-se a tempo É a prática atual, e depende de mecânica da fratura e de inspeção confiável

Também ficou a prática do ensaio de fadiga em escala real, com a estrutura completa e carregamento representativo — não só corpos de prova. E ficou um hábito de investigação: reproduzir a falha em laboratório antes de afirmar a causa.

Vale notar que o Comet não foi um caso isolado de tecnologia nova trazendo junto um modo de falha que ninguém media. Dez anos antes, os cascos soldados dos navios Liberty partiram ao meio por um mecanismo diferente — fratura frágil no frio —, história contada em o ensaio Charpy e o frio que quebra estrutura.

O que isso tem a ver com a sua peça

Nenhuma peça industrial é uma fuselagem pressurizada, mas a lógica vale inteira sempre que a carga se repete: um eixo que gira, um suporte que vibra, um molde que esquenta e esfria, um vaso que enche e esvazia, uma mola que comprime.

Em uma investigação de falha, a superfície de fratura é o documento principal: ela registra onde a trinca nasceu, por quanto tempo ela cresceu e em que momento a peça rompeu. É por isso que o pedido mais repetido em qualquer laboratório de análise de falha é também o mais simples: não limpe e não corte a peça na região da fratura antes de enviá-la.

Dicionário do post

Os termos técnicos que aparecem aqui, em português claro.

Fadiga
Dano que se acumula em um material submetido a cargas que se repetem, mesmo quando cada carga isolada está muito abaixo do que ele suportaria de uma vez só.
Ciclo de pressurização
Um voo, do ponto de vista da estrutura: a cabine é inflada na subida e esvaziada na descida. Cada voo é uma carga aplicada e retirada.
Concentração de tensão
O aumento local da tensão em volta de um furo, canto, rasgo ou mudança brusca de seção. Quanto mais abrupta a geometria, maior o pico.
Nucleação da trinca
O começo da trinca, em um ponto onde a tensão local é alta — normalmente um defeito, um risco de usinagem ou a borda de um furo.
Propagação
A fase em que a trinca cresce um pouco a cada ciclo. É longa e silenciosa: a peça continua funcionando enquanto a trinca avança.
Tamanho crítico de trinca
O comprimento a partir do qual a trinca deixa de crescer devagar e rompe de uma vez. A ruptura final é instantânea.
Encruamento
O endurecimento que o metal sofre ao ser deformado. Ele muda o comportamento local do material — inclusive a resistência à fadiga daquele ponto.
Tensão circunferencial
A tensão que tenta abrir um vaso sob pressão ao longo de uma linha paralela ao eixo. Em uma fuselagem pressurizada, é a maior das tensões de pressão.
Safe-life
Filosofia de projeto que define um número de ciclos de vida e manda trocar a peça antes disso, assumindo que até lá ela não terá trinca.
Fail-safe
Filosofia de projeto em que a estrutura continua segura mesmo com uma trinca presente, porque há caminhos de carga alternativos e barreiras que travam o avanço da trinca.
Tolerância ao dano
A prática atual: admite-se que existe trinca, calcula-se a velocidade com que ela cresce e define-se o intervalo de inspeção para achá-la a tempo.
Mecânica da fratura
O conjunto de métodos que calcula quanto uma trinca de tamanho conhecido cresce a cada ciclo, e quando ela se torna crítica.

Referências

  1. 01Ministry of Transport and Civil Aviation (presidido por Lord Cohen). Report of the Court of Inquiry into the Accidents to Comet G-ALYP on 10th January 1954 and Comet G-ALYY on 8th April 1954 (1955)
  2. 02WITHEY, P. A.. Fatigue failure of the de Havilland Comet I. Engineering Failure Analysis, v. 4, n. 2, p. 147–154 (1997)
  3. 03Aerossurance. Common Comet Misconceptions and Collaborative Contribution to Safety (2019)
  4. 04de Havilland Aircraft Museum. Comet 1 Inquiry
  5. 05RAF Museum Cosford. Placa descritiva do espécime de ensaio de fadiga da fuselagem do Comet G-ALYU, em exposição
  • fadiga
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  • análise de falha
  • concentração de tensão
  • história da engenharia
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